sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Anseio


Reprodução gráfica da tela referente à essa crônica


Dia desses acordei sentindo que estava necessitando realizar alguma coisa, mas meus sentidos não revelavam o que queriam. O jeito seria executar coisas que andei adiando talvez na tentativa de esquecer, ou na esperança de que se resolvessem por si mesmos.

Resolvi enfrentar, mas somente uma das “coisas” pendentes. A pior delas. Pensei que meu anseio ficaria satisfeito, e na verdade até senti alívio, mas pelo modo como ele continuou presente em meu pensamento, conclui que era necessária uma busca interior para satisfazê-lo.

Lembrei da senhorinha idosa, carente de atenção, que mora bem perto, vizinha mesmo. Talvez devesse visitá-la, como havia prometido. Foi o que fiz, e até sai de sua casa sentindo certo bem estar pela minha solidariedade.

Por que sempre me parece que ajudar de alguma forma a alguém nada mais é do que acalmar nossa consciência? Será egoísmo?

E a necessidade de fazer algo continuou...

Resolvi relacionar o que sei fazer: Ensinar matemática, mas já estou às voltas com aulas de trigonometria, logo conclui não ser isso. Adoro cozinhar, mas o final de semana foi mais que engordativo, ganhei um quilo e meio, portanto nada de cozinha. Talvez mexer na terra, cuidar das plantas dos meus canteiros sim, isso é prazeroso, até peguei meus apetrechos de jardinagem, mas percebi que estava completamente desmotivada.

Sei que gosto mesmo é de criar, de fazer coisas surgirem através das minhas mãos, e que retirem com suas formas, ou cores, ou mensagens, algum dos arquivos ocultos do meu inconsciente, fazendo-os aflorarem e tornarem-se instalados no consciente.

Lembrei-me de minhas tintas, pincéis e telas há muito tempo esquecidas, abandonadas. Senti a aprovação dos meus sentidos, pensei num tema e decidi por uma natureza morta, frutas, mas sem imitar a natureza, que sei bem que Aquele que a criou é inimitável. Peguei uma maçã, cortei-a ao meio, posicionei-a ao lado do cavalete com a tela...

Mergulhei no meu consciente e devo ter ultrapassado seus limites, pois agora olho pra tela e cobro do meu inconsciente e também do consciente, o que essa tela que criei quer me dizer... Porque, com certeza, não é a representação gráfica de uma maçã, é uma imagem instigante a todos que a observam, principalmente eu!

O anseio de criar algo se foi, mas o conheço bem, sei que voltará...



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